Eckhart Tolle é um mestre espiritual
ocidental, porém profundamente alinhado
com a tradição meditativa do Oriente.
Hoje mundialmente conhecido pelo livro O
Poder do Agora, durante muitos anos
ele compartilhou sua experiência de realização
interior apenas com um número muito reduzido
de buscadores.
Nos textos que transcrevemos a seguir, Eckart
fala a respeito destes primeiros tempos e como
o estado de iluminação impactou
radicalmente sua vida. Avalia, também,
o processo mais amplo de transformação
da consciência humana e seus possíveis
reflexos no futuro do planeta.
O material foi extraído de uma entrevista
concedida por Eckhart à norte-americana
Jenny Simon. O encontro aconteceu em Vancouver,
no Canadá, onde o mestre (alemão??)
atualmente vive.
Jenny Simon - As pessoas ao
seu redor devem pensar que você é um
pouco lunático. Em sua experiência
interior, você nunca questionou o que aconteceu?
Eckhart - Não. Era tão claro e não
havia nenhuma pergunta sobre uma realidade que era
tão óbvia. Uma vez eu disse que mesmo
se tivesse encontrado o Buda e ele me apontasse
“não, não é isso”,
eu diria – “que interessante, mesmo
Buda pode estar errado”. Isto não é
algo do ego, é só para deixar claro
como essa realidade é tão óbvia
que nenhuma questão mental, nenhuma pergunta
adiantaria. Por exemplo, se alguém me desse
uma maçã e dissesse “não,
não é uma maçã”,
eu diria “não, eu sei que é”.
Jenny Simon - Você
aponta que seu estado de consciência implicou
numa redução de 80% na atividade
de sua mente pensante. Isso criou alguma espécie
de carência ou algo parecido?
Eckhart- Bem, não tanto para mim, mas
para as pessoas ao meu redor (risos). Isso é
certo, pois as pessoas que me conheciam, especialmente
a família, pais, alguns amigos, pensaram
que algo errado tinha acontecido comigo –
isto porque por algum tempo, após a mudança,
eu prossegui com as estruturas externas de minha
vida. Apenas prosseguia como se nada houvesse
acontecido, porque ainda havia um “momentum”
e continuei seguindo-o durante três ou quatro
anos. Então percebi que essas estruturas
externas estavam totalmente fora do alinhamento
com meu ser – no mundo acadêmico totalmente
dominado pela mente, o ego dominado completamente.
Então aconteceu um momento em que deixei
tudo para trás...
Foi aí que as pessoas pensaram que eu estava
realmente louco – abandonado uma promissora
carreira acadêmica e indo sentar-me em um
banco do parque, sem fazer mais nada. Era bem
estranho, porque eu não tinha nenhuma orientação
espiritual, ninguém para dizer-me “você
não precisa viver no banco do parque, você
pode continuar funcionando no mundo”. Eu
defini isso por mim mesmo. E isso levou bastante
tempo, para que então eu pudesse de novo
continuar funcionando no mundo. Por uns tempos,
o estado da presença, do ser, era tão
satisfatório, belo e completo que perdi
todo o interesse no futuro... quanto mais ter
ambição ou viver para adquirir isto
ou aquilo. Se o momento presente era tão
preenchedor, por que precisaria do futuro? Mas
naturalmente, no nível prático o
futuro ainda opera, e saber disso às vezes
ajuda. Você precisa tomar um avião
daqui a alguns dias, ou aprender algo que leva
certo tempo, aprender uma língua, ou o
que quer que seja. Mas, eu não mais necessitava
do futuro, internamente, e passaram-se anos antes
que eu começasse a ser capaz de lidar com
o mundo novamente, sem necessitar dele –
era quase como uma forma de brincadeira. Iniciar
coisas, fazer coisas e, miraculosamente, também
um bom tanto de coisas vinham a mim... Mesmo enquanto
estava sentado no banco do parque, com quase nada
em meu bolso, geralmente no último momento
alguma ocorria ou alguém vinha e novamente
eu tinha algo com que viver, por enquanto. Milagrosamente
isso sempre acontecia, e gradualmente, então,
eu comecei a funcionar no mundo de novo.
Devo dizer que duas ou três vezes tentei
voltar às estruturas do mundo, sentia que
meu tempo no banco do parque estava terminando,
então me dizia: “Ok, é melhor
eu fazer alguma coisa”. Uma vez me candidatei
a um emprego, e isso é bem engraçado,
um emprego num banco mercantil na cidade de Londres
(riso). Durante a entrevista, ouviram-me com interesse,
mas não me deram o lugar. Depois candidatei-me
a um emprego acadêmico e houve outra entrevista,
só que devo ter dito algo, embora tenha
procurado evitar a linguagem espiritual, mas...
havia seis ou sete professores ao meu redor e
ao final da entrevista um deles me perguntou:
o que você realmente quer fazer? (riso).
E na realidade não havia nada que eu realmente
quisesse fazer, então essa foi a minha
última entrevista – eu percebi que
na realidade não queria voltar às
estruturas do mundo.
Foi então que gradualmente as pessoas
vieram e passaram a me fazer perguntas, começando
com situações de ensino informal.
Algo um pouco mais estruturado surgiu e então
eu me tornei um professor espiritual aos olhos
do mundo (risada), foi isso que aconteceu. Não
ganharia um emprego se colocasse no meu currículo
“não mais preciso pensar”,
mas realmente é o que acontece. O próprio
poder de ensinar vem desse estado, da consciência.
Não sou eu, e sempre que começo
a falar tenho essa sensação de que
não tenho nada, absolutamente nada, a dizer.
Assim, não é realmente esta pessoa
que está fazendo qualquer coisa. Todo o
ensinamento que tem causado um certo impacto no
mundo vem desse estado de não-pensamento,
não tem nada a ver com esta pessoa aqui...
(riso)
Jenny Simon - Eu
ouvi você várias vezes citar o mestre
indiano Ramana Maharshi. Como se mede o progresso
espiritual? É pela ausência do pensamento?
Você acredita nisso realmente?
Eckhart - Sim, sim. No grau da ausência
de pensamento, sim, está certo. É
simples, muito simples.
A mente pode dizer: “ok” –
mas isto significa que não fiz nenhum progresso,
porque estou pensando o tempo todo. Talvez você
não saiba que já há ausência
de pensamento em si, talvez algum breve momento,
mas não importa... Você respondeu
à beleza? Deve haver ausência de
pensamento em você, porque de outra forma
não veria a beleza. Esse momento é
ausência de pensamento. Pode haver muitos
momentos de ausência de pensamento –
de repente você percebe: “Gente, há
ocasiões em que o pensamento está
ausente”. Ou você pode exclamar: “Oh!
Eu não estou pensando!” (riso). E
você já está pensando de novo.
Algumas vezes você sabe que não está
pensando e ainda não está pensando
(riso). Mas é bom não tentar provocar
esse estado, porque poderia ser um esforço
muito grande. A forma mais rápida de tornar-se
livre de pensamento é ainda render-se ao
momento, aceitar este momento como ele é,
porque se você observa o processo de pensar
compulsivo, descobre que sempre está associado
à não-aceitação. A
não-aceitação é a
característica essencial do estado egóico
criado na mente – a não-aceitação
do agora.
E toda a compulsão realmente é
uma fuga, é o negar da beleza e da vida
do agora. Quando você vê a verdade
disso, pode aceitar este momento como ele é.
É um estado de grande força –
não de fraqueza, como a mente pode dizer-lhe,
exceto que há um efeito colateral dessa
aceitação, a mente deixada de fora,
porque quando você não está
lutando com o que é, a compulsão
para pensar cessa.
Isso é algo que requer continuidade da
prática espiritual. Muitas vezes você
não aceita o que é e então
percebe que está novamente negando o agora.
E essa percepção está certa,
quando você vê a não-aceitação,
já está livre dela. Quando você
não vê a não-aceitação,
então fica novamente preso em todo o ruído
mental, porque não está aceitando
o que é.
Assim, a mais poderosa prática espiritual
é aceitar este momento como ele é.
Aceitação descomprometida deste
momento como ele é. É por isso que
grandes mestres às vezes parecem tão
aterradores, embora sejam gentis internamente,
na realidade. Olhando velhos retratos ou fotos
de grandes mestres, seus olhos são tão
aterradores. Sim, descompromissado agora, sim,
não movendo, estando aberto. E este estado
é tanto gentil quanto aterrador, ambos
ao mesmo tempo. Então essa é a prática
espiritual mais poderosa e é realmente
a única prática espiritual que não
lhe dá tempo (riso). Há tantas práticas
espirituais que lhe concedem tempo para tornar-se
um bom adepto, praticar mais e mais, gradualmente.
Mas aceitar este momento como ele é, você
só pode fazê-lo agora.
Jenny Simon - Freqüentemente
temos ouvido você falar sobre a nova consciência
que está emergindo e como esse estado está
disponível cada vez para um número
maior de pessoas. Mas, honestamente, não
estou convencida de que isso não seja uma
projeção de sua experiência.
Não tenho dúvida de que você
floresceu como ser humano, mas não vejo
evidência, ao meu redor, de que muitas pessoas
passarão por isso. Pergunto: você
tem alguma premonição de que isso
vai acontecer em 5, 10, mil anos? Como isso realmente
transformará o mundo?
Eckhart - Certo. Admito que pareço estar
no epicentro da onda de transformação
porque isso é o que eu faço e as
pessoas chegam para estar em contato comigo. Todos
que encontro estão sofrendo transformações
e às vezes, quando ligo a televisão,
sou repentinamente lembrado – “Oh!
Não está acontecendo com todo mundo”.
Por causa de minha posição peculiar,
admito que certas vezes parece, para mim, que
o mundo inteiro está se transformando.
Ao mesmo tempo, recebo mesmo imensa massa de correspondência
de pessoas que estão relatando mudanças
na consciência e enorme diminuição
do sofrimento, etc. Isso eu vejo em toda parte;
porém não, não tenho uma
escala do tempo, tudo que eu sei é que
há uma aceleração de algo.
Também sinto que o planeta provavelmente
não sobreviverá outros cem anos
se a velha consciência predominar por muito
tempo no planeta, com tudo que isso significa.
É impossível que a natureza do
planeta possa suportar isso. Assim, pela primeira
vez na história humana essa transformação
tornou-se uma necessidade, até mesmo para
a sobrevivência da espécie. E talvez
seja somente assim, em qualquer evolução
e transformação, talvez seja apenas
quando a espécie alcança um ponto
crítico em que a sobrevivência fica
ameaçada se ela continuar sem transformar-se
– aí então essa transformação
acontece em nível coletivo. Eu acredito
– e posso dizer que é quase um fato
– que se os velhos padrões de fazer
as coisas continuarem por mais cem anos, e naturalmente
esses padrões ficarão ainda mais
ampliados, os meios de destruição
serão maiores e o planeta não será
mais capaz de sustentar a vida humana por mais
cem anos.
Assim, pela primeira vez na história humana
chegamos a um ponto em que a transformação
da consciência não é mais
um luxo. Talvez tenha havido no tempo de Buda
os primeiros florescimentos, também no
tempo de Jesus, já apontando para algo
novo, uma maneira de ver o que estava acontecendo.
Os primeiros sinais disso e depois algumas flores
aqui e ali, mas nunca tinha sido uma necessidade
para a sobrevivência do planeta e o fim
da loucura humana. Mas depois veio a tecnologia,
veio a ciência – sim, também
manifestações de grande inteligência
–, e ainda assim ampliaram a loucura em
larga escala. Antes as pessoas tinham sorte se
conseguiam matar uns poucos, agora podem matar
centenas, milhões com um só aparelho
(riso). Não há mudanças,
simplesmente amplia-se o efeito da inconsciência.
E é uma boa coisa, porque vemos mais claramente
que nunca.
É chocante para as pessoas que a primeira
guerra criou armas poderosas de destruição,
provindas da tecnologia, e aí pensamos:
o que foi que fizemos? Milhões e milhões
de jovens morrendo nas trincheiras inutilmente
– Oh, meu Deus – foi uma abertura
da visão da loucura, lá no começo
do século XX. Mas agora sabemos também
o que aconteceu no restante do século.
Está em seu rosto agora, é tão
óbvio. Eu sei que o trabalho que faço,
qualquer que seja, é uma manifestação
da nova consciência e há muitas pessoas
atravessando isso. Para salvar o planeta? Eu não
sei, talvez não.
Jenny Simon - Então,
pode-se dizer que você é uma espécie
de necessidade da evolução, de certa
forma?
Eckhart - Sim, na realidade é isto que
está acontecendo. É quase como se
a espécie estivesse se tornando algo novo,
uma nova espécie está evoluindo
da velha. E, novamente, não é algo
do ego, dizendo eu sou da nova espécie,
e você não (riso). Mas sim, é
bem como se uma nova espécie estivesse
chegando, e está chegando porque a velha
espécie não é mais capaz
de sobreviver, a menos que mude (riso).
Jenny Simon - E você
pode descrever a nova espécie, quais seriam
suas características?
Eckhart - A nova espécie não necessita
de inimigos, drama ou conflito para dar-lhe um
sentido de identidade e assim, torna-se livre,
em grande escala, do conflito e do sofrimento
causado pelo homem, que é uma característica
da velha consciência. Buda teve uma bela
perspectiva disso, quando disse, para descrever
o estado de consciência da liberação,
que ela é livre do sofrimento – você
não sofre mais. Pode ainda haver dor, porque
enquanto houver corpo físico haverá
dor, você pode ter uma dor de dente. Mas
o sofrimento psicológico é causado
pela entidade do eu na cabeça. Você
não mais causará sofrimento para
si próprio através das estruturas
do pensamento. E quando você não
mais causa sofrimento para si, não mais
causa sofrimento para outros. A interação
entre seres humanos não será mais
coberta pelo medo, como é agora –
o medo e o desejo, dois movimentos de estado inconsciente.
A interação humana será
caracterizada pelo amor e compaixão. E
o amor não será do tipo “preciso
de você, não ouse abandonar-me, porque
eu não sei o que vou fazer se você
me deixar”, o amor da chamada velha consciência.
Amor é simplesmente reconhecer o outro
como sendo você próprio, o reconhecimento
da unidade é amor. E todas as interações,
quando se reconhece o outro como você próprio,
não mais acontecem através da formação
de uma imagem, uma identidade da forma, de quem
aquela pessoa é. E porque você vai
além da identificação da
forma em si própria, não mais constrói
pequenas armadilhas e pequenos conceitos de outras
pessoas... então o amor reina.
Não se pode conceber o que seria o mundo
se uma grande parte da humanidade vivesse nesse
novo estado de consciência. Eu não
faço, geralmente, considerações
sobre esse fato. Minha suposição
sobre isso é de que não seria possível
reconhecer a estrutura da natureza humana. Seria
muito diferente. Potencialmente este planeta poderia
ser o paraíso – é um paraíso,
mas as pessoas se esforçam muito para torná-lo
um inferno, contudo ainda é um belo paraíso.
Não estou dizendo que no nível da
forma não haverá limitação,
sim, as formas ainda vêm e vão. Mas
ainda assim a harmonia é possível,
viver em harmonia com a natureza. Viver em um
estado de amor, amando a essência de cada
forma, pois a vida se manifesta através
de milhões de formas de vida. Amando uma
vida da qual milhões de formas são
manifestações temporárias,
amando-as como a si próprio, sendo elas
– esse é o novo estado de consciência.
Fonte: http://groups.msn.com/conhecendoKrishnamurti/